

Entre investimentos e desafios, transporte coletivo de Passo Fundo inicia uma nova etapa

Em entrevista à Rádio Ônibus, diretor Carlos Henrique Pereira aborda os investimentos em Passo Fundo, a parceria com a Be8, os impactos da escala 6x1 e a necessidade de políticas públicas para recuperar passageiros.
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A modernização do transporte coletivo, a busca por alternativas energéticas menos poluentes e a necessidade de equilibrar os custos operacionais estão entre os principais desafios enfrentados pelas empresas de ônibus no Brasil. Em Passo Fundo, no Rio Grande do Sul, a Coleurb prepara uma nova etapa de sua operação, com renovação da frota, investimentos em tecnologia e experiências com biocombustíveis.
Em entrevista à Rádio Ônibus, o diretor-geral da Coleurb, Carlos Henrique Pereira, apresentou os planos da empresa, que possui cerca de 65 anos de atuação na cidade, e analisou questões que afetam o setor, como a concorrência com os aplicativos de transporte, a escassez de motoristas, a discussão sobre o fim da escala 6x1 e os custos da descarbonização.
Entre os destaques está a parceria com a Be8, empresa de biocombustíveis com atuação em Passo Fundo, para utilização do BeVant em parte da frota.
Coleurb inicia nova etapa após conquista de licitação
Com aproximadamente 65 anos de história em Passo Fundo, a Coleurb passou por mudanças societárias nos últimos anos e atualmente integra um novo grupo empresarial. Segundo Carlos Henrique Pereira, a empresa conquistou a licitação do transporte coletivo municipal, iniciando uma nova fase de investimentos.
Atualmente, a Coleurb opera aproximadamente 109 veículos. Com o novo contrato, deverá assumir também os serviços anteriormente realizados por uma empresa pública municipal, passando a contar com uma operação de cerca de 113 ônibus.
A mudança exigirá investimentos na renovação da frota, contratação de profissionais e atualização dos sistemas de gerenciamento.
Segundo o diretor, a idade média atual dos veículos está próxima de 11 anos, enquanto o novo contrato estabelece uma média de sete anos e meio.
A empresa trabalha com um programa de renovação que prevê a incorporação de veículos novos e seminovos. Na entrevista, Pereira mencionou aproximadamente 45 seminovos e um conjunto de substituições que poderá alcançar quase 80 veículos.
A modernização também deverá contemplar tecnologias de monitoramento e controle operacional, aproximando Passo Fundo das soluções utilizadas em outros sistemas de transporte coletivo do país.
Tarifa de R$ 6 e subsídio público não eliminam dificuldades financeiras
Um dos principais pontos abordados durante a entrevista foi o financiamento do transporte coletivo.
Em Passo Fundo, a tarifa paga pelo passageiro é de R$ 6, enquanto o poder público municipal participa do custeio da operação. Segundo Pereira, o subsídio representa aproximadamente 30% do custo do sistema.
Apesar desse apoio, o diretor considera que o modelo de financiamento ainda apresenta limitações, especialmente diante da necessidade de investimentos e da redução da demanda.
Para ele, o setor enfrenta um ciclo em que os custos elevados pressionam a tarifa, afastando passageiros e comprometendo ainda mais o equilíbrio financeiro.
Pereira defende que a recuperação do transporte coletivo depende de oferecer uma experiência mais atrativa, com conforto, regularidade, velocidade e integração.
O objetivo, segundo o executivo, é fazer com que a população volte a utilizar o ônibus não apenas por necessidade, mas também por considerá-lo uma alternativa eficiente de deslocamento.
Falta de corredores exclusivos prejudica a competitividade dos ônibus
A infraestrutura urbana foi outro tema central da conversa.
Segundo o diretor, Passo Fundo ainda não dispõe de faixas exclusivas ou corredores dedicados ao transporte coletivo, tampouco de terminais de integração capazes de facilitar a reorganização das linhas.
Pereira considera que muitas cidades brasileiras continuam operando redes de transporte concebidas há décadas, com alterações pontuais e prolongamentos de itinerários, sem uma reformulação compatível com o crescimento urbano.
Na avaliação do executivo, a prioridade dada historicamente ao automóvel contribuiu para reduzir a competitividade do ônibus.
Como referência de transformação, ele citou a Região Metropolitana de Goiânia, onde investimentos em infraestrutura e reorganização operacional vêm contribuindo para melhorar a qualidade do transporte.
Para o diretor, a implantação de corredores exclusivos, a reorganização das linhas e o aumento da velocidade comercial são fundamentais para reduzir custos e atrair passageiros.
Aplicativos de transporte ampliam pressão sobre o sistema
A concorrência com os aplicativos de transporte também preocupa a Coleurb.
Pereira observa que, em determinados deslocamentos, o custo de uma viagem por aplicativo, quando dividido entre dois passageiros, pode se aproximar do valor das passagens de ônibus.
Além do preço, os aplicativos oferecem a conveniência de transportar o usuário diretamente entre a origem e o destino.
O diretor não considera que essas plataformas devam deixar de existir, mas defende uma discussão sobre sua regulamentação e integração às políticas de mobilidade urbana.
Na avaliação dele, o transporte coletivo precisa melhorar sua competitividade por meio da eficiência operacional e de investimentos públicos em infraestrutura.
Escala 6x1 pode aumentar custos operacionais
A discussão nacional sobre a redução da jornada de trabalho e o possível fim da escala 6x1 também foi abordada durante a entrevista.
Carlos Henrique Pereira demonstrou preocupação com os impactos financeiros de eventuais mudanças, especialmente porque o transporte coletivo é um serviço essencial que precisa funcionar diariamente, inclusive aos domingos e feriados.
Segundo o diretor, as empresas do setor possuem estruturas de pessoal e obrigações trabalhistas que precisam ser consideradas em qualquer alteração da jornada.
Ele ressaltou que o transporte coletivo já enfrenta pressões relacionadas aos custos da folha de pagamento e que novas exigências poderão ampliar a necessidade de financiamento público.
Pereira defendeu que as particularidades dos serviços essenciais sejam consideradas na regulamentação das mudanças, de modo a preservar a continuidade das operações e a sustentabilidade financeira do sistema.
Formação de motoristas e futuro da função de cobrador
A disponibilidade de profissionais também integra os desafios do transporte coletivo.
Na Coleurb, uma das alternativas para formar motoristas é aproveitar trabalhadores que já atuam na empresa, especialmente cobradores interessados em desenvolver uma nova carreira.
Pereira acredita que a expansão da bilhetagem eletrônica e dos meios digitais de pagamento tende a reduzir gradualmente a necessidade da função de cobrador.
Para ele, essa transformação precisa ser acompanhada de políticas de qualificação e aproveitamento dos profissionais dentro das próprias empresas.
A formação de novos motoristas, além de contribuir para a continuidade das operações, pode representar uma alternativa para reduzir os impactos sociais das mudanças tecnológicas.
Parceria com a Be8 leva biocombustível BeVant à operação
A descarbonização do transporte coletivo ganhou espaço na entrevista com a apresentação da experiência desenvolvida pela Coleurb em parceria com a Be8.
O projeto envolve a utilização do BeVant, biocombustível 100% renovável à base de biodiesel com preparação específica, em parte dos ônibus da empresa.
Segundo Pereira, a iniciativa começou em janeiro de 2026 e os resultados operacionais observados até o momento são considerados positivos.
O diretor afirmou que os veículos em teste não apresentaram problemas crônicos ou dificuldades relevantes de funcionamento em comparação com os ônibus abastecidos com diesel convencional.
Entretanto, a utilização do combustível ainda enfrenta limitações relacionadas ao custo e à homologação pelos fabricantes dos veículos.
Pereira explicou que nem todas as montadoras autorizam a utilização de biodiesel puro em seus motores, o que exige avaliações técnicas antes de uma eventual ampliação do projeto.
Biocombustível custa aproximadamente R$ 1,30 a mais por litro
Apesar dos resultados técnicos favoráveis, o preço continua sendo um dos principais obstáculos para ampliar o uso do BeVant.
De acordo com o diretor, durante o período analisado, o biocombustível apresentou custo aproximadamente R$ 1,30 superior ao litro do diesel convencional.
Com o diesel na faixa de R$ 6 por litro, essa diferença representa um impacto importante para uma operação que depende de grandes volumes de combustível diariamente.
Pereira observou, porém, que a competitividade dos biocombustíveis pode mudar conforme as oscilações do petróleo e os preços praticados no mercado.
O executivo considera que a descarbonização precisa ser acompanhada de condições econômicas que permitam a adoção das novas tecnologias sem comprometer a sustentabilidade financeira do transporte coletivo.
Ônibus elétricos também estão no horizonte da Coleurb
Além do biocombustível, a eletrificação foi apontada como uma possibilidade para o futuro da operação em Passo Fundo.
Pereira acredita que não existe uma única solução energética capaz de atender todas as necessidades do transporte coletivo brasileiro.
Segundo ele, os ônibus elétricos ainda apresentam um custo de aquisição significativamente superior ao dos veículos convencionais, embora possam oferecer vantagens nas despesas operacionais.
O diretor mencionou que modelos elétricos já conseguem alcançar autonomias próximas de 350 quilômetros, resultado dos avanços nas baterias e nos sistemas de gerenciamento de energia.
O grupo empresarial do qual a Coleurb faz parte também acompanha experiências de eletrificação em Porto Alegre, o que poderá contribuir para futuras decisões de investimento.
Apesar do interesse, a empresa adota uma postura cautelosa, acompanhando a evolução tecnológica e a possibilidade de redução dos preços dos veículos.
Para Pereira, a tendência é que diferentes tecnologias, incluindo biocombustíveis e eletrificação, convivam nas frotas brasileiras durante a transição energética.
Transporte coletivo precisa estar no centro das políticas públicas
Ao encerrar a entrevista, Carlos Henrique Pereira ressaltou a responsabilidade das empresas, dos gestores públicos e da sociedade na construção de sistemas de transporte mais eficientes.
O diretor considera fundamental ampliar o debate sobre os custos reais da operação, a necessidade de financiamento e as medidas capazes de melhorar a mobilidade urbana.
Segundo ele, aumentar a quantidade de ônibus em circulação, isoladamente, não resolve os problemas estruturais do transporte.
A solução passa por planejamento, infraestrutura, financiamento adequado e políticas públicas capazes de tornar o transporte coletivo mais atrativo para a população.
Para a Coleurb, os próximos anos serão marcados pela modernização da operação em Passo Fundo, pela renovação dos veículos e pela avaliação de alternativas energéticas que possam contribuir para reduzir os impactos ambientais do transporte de passageiros.


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