

Reiter Log recebe caminhão elétrico da Scania e amplia estratégia que já reúne gás e biometano
Transportadora, que já construiu uma das principais operações brasileiras com caminhões a gás, inicia testes com veículo 100% elétrico e aposta em diferentes tecnologias para avançar na descarbonização do transporte

A estratégia de descarbonização da Reiter Log ganhou um novo capítulo. Depois de construir uma operação baseada em caminhões movidos a gás e ampliar a utilização do biometano, a transportadora recebeu seu primeiro caminhão 100% elétrico da Scania e inicia agora uma nova etapa de avaliação de tecnologias de menor emissão.
A convite da Scania, a Rádio Ônibus participou da coletiva de imprensa realizada nas instalações da Reiter Log, em Barueri, na Grande São Paulo, onde conheceu de perto o novo veículo e os planos das duas empresas para sua utilização.
A chegada do elétrico não representa uma mudança de direção na estratégia da transportadora. Pelo contrário. A Reiter pretende combinar diferentes fontes de energia e escolher a tecnologia mais adequada de acordo com a distância, tipo de carga, infraestrutura disponível e necessidade de cada cliente.
Nesse cenário, gás, biometano e eletricidade passam a dividir espaço dentro de uma mesma estratégia de descarbonização.
Experiência com caminhões a gás abriu caminho
A relação da Reiter com combustíveis alternativos começou muito antes da chegada do elétrico.
Os proprietários da companhia lembraram durante o encontro que a jornada de sustentabilidade começou ainda em 2014, quando caminhões movidos a gás despertavam dúvidas no mercado e a infraestrutura brasileira para esse tipo de veículo era bastante limitada.
A aposta ganhou força nos anos seguintes. Em 2021, a empresa avançou com um lote de 24 caminhões e, posteriormente, realizou novas incorporações.
Atualmente, de acordo com os números apresentados durante o evento, a Reiter possui cerca de 300 caminhões a gás em operação e prepara uma nova expansão dessa frota.
A companhia anunciou um novo lote de veículos movidos a gás com entregas previstas gradualmente até 2027, reforçando que, apesar da chegada do elétrico, essa tecnologia continuará tendo papel importante nas operações rodoviárias.
Biometano ganha protagonismo
Dentro da estratégia dos veículos a gás, o biometano tornou-se uma das principais apostas da Reiter.
O combustível renovável pode ser produzido a partir da purificação do biogás gerado pela decomposição de resíduos orgânicos. Resíduos agroindustriais, dejetos animais, restos de alimentos e materiais provenientes de outras atividades podem, dessa maneira, ser transformados em energia.
Para Vinicius Pilz, fundador e diretor-presidente da Reiter Log, essa característica oferece ao Brasil uma oportunidade importante.
A grande disponibilidade de biomassa e resíduos permite criar uma cadeia na qual aquilo que anteriormente poderia representar desperdício ou passivo ambiental passa a ser utilizado para movimentar caminhões.
O processo também está relacionado à economia circular. Além do biogás que posteriormente pode ser purificado e transformado em biometano, a biodigestão pode gerar subprodutos aproveitáveis, como biofertilizantes.
Reiter precisou investir também em abastecimento
A experiência mostrou, entretanto, que não bastava comprar caminhões.
Um dos maiores obstáculos encontrados pela Reiter foi justamente a falta de infraestrutura. Sem uma rede de abastecimento compatível, aumentar a frota de veículos a gás seria inviável.
A transportadora passou, então, a investir também nessa estrutura.
Hoje, a companhia mantém postos próprios e desenvolveu o chamado Corredor Verde, estruturando pontos de abastecimento para permitir que os caminhões utilizem biometano em rotas previamente planejadas.
A estratégia procura resolver uma das principais barreiras enfrentadas pelos combustíveis alternativos no transporte pesado: garantir energia disponível no lugar e no momento em que o caminhão precisa.
Essa experiência acumulada com o gás agora serve de referência para a introdução do elétrico.
Primeiro elétrico da Scania entra em operação
O novo caminhão 100% elétrico da Scania será colocado em condições reais de trabalho para que as duas empresas possam avaliar produtividade, autonomia, carregamento, manutenção e custos.
Silvio Renan, diretor de Vendas e Soluções da Scania Brasil, comparou essa etapa ao processo vivido anteriormente com os caminhões a gás.
Antes de ampliar aquela frota, Reiter e Scania precisaram entender na prática questões como autonomia, abastecimento e adequação das rotas. Agora, o elétrico passa por processo semelhante.
O primeiro veículo funcionará, portanto, como uma prova operacional.
A expectativa é direcioná-lo principalmente a clientes corporativos que possuam compromissos ambientais e metas de redução das emissões.
Autonomia próxima de 250 quilômetros
Segundo Silvio Renan, o caminhão possui autonomia em torno de 250 quilômetros, sendo aproximadamente 200 quilômetros utilizados como referência para o planejamento seguro da operação.
Essa característica direciona inicialmente o veículo para trajetos urbanos e interurbanos previsíveis.
Uma operação entre São Paulo e Jundiaí, por exemplo, foi mencionada como referência do tipo de aplicação em que a tecnologia pode ser utilizada. O caminhão realiza sua programação e retorna a um ponto onde exista infraestrutura para recarga.
No elétrico, portanto, conhecer previamente origem, destino, distância e disponibilidade dos carregadores passa a ser parte fundamental do planejamento logístico.
Preço ainda é um dos grandes desafios
Se operacionalmente a tecnologia avança, o investimento inicial ainda representa uma barreira importante.
Vinicius Pilz afirmou que um caminhão elétrico pode exigir um investimento superior ao dobro do necessário para aquisição de um modelo equivalente a diesel.
Em um cenário de juros elevados, essa diferença exige produtividade.
"A energia elétrica tem custo relativamente melhor que outros combustíveis, mas tem que trabalhar muito em produtividade para que ele consiga pagar essa conta."
A afirmação resume uma das principais mensagens apresentadas pela Reiter: sustentabilidade precisa ser economicamente sustentável.
Não basta reduzir emissões. A tecnologia precisa encontrar uma operação na qual custos, produtividade, disponibilidade e benefícios ambientais consigam fechar a conta.
Clientes podem ajudar a viabilizar a eletrificação
É nesse ponto que os embarcadores ganham importância.
Grandes empresas estabeleceram metas próprias de redução das emissões e passaram a olhar também para o impacto ambiental de suas cadeias logísticas.
Para a Reiter, clientes com compromissos de ESG podem contribuir para viabilizar operações com tecnologias que ainda apresentam investimento inicial superior.
A transportadora já desenvolve modelos de rotas sustentáveis, nas quais procura combinar cargas e clientes para aumentar o aproveitamento dos veículos.
Quando um único embarcador não possui volume suficiente para justificar uma operação dedicada, o caminhão pode transportar a carga de um cliente em determinado trecho e aproveitar o retorno atendendo outro.
A estratégia busca reduzir deslocamentos improdutivos e aumentar a eficiência econômica do veículo sustentável.
Mercado de carbono entra na equação
Vanessa Pilz, diretora de ESG da Reiter Log, destacou ainda a evolução da regulamentação do mercado de carbono brasileiro.
A expectativa é que mecanismos capazes de atribuir valor econômico às emissões evitadas aumentem a importância das tecnologias de descarbonização.
Nesse cenário, reduzir CO₂ deixa de representar somente um benefício ambiental e pode passar a ter impacto econômico mais direto para transportadores e clientes.
A capacidade de medir e comprovar essa redução também ganha relevância. Para empresas com metas ambientais, é necessário saber quanto foi emitido, qual combustível foi utilizado e qual benefício foi obtido pela mudança da operação.
Elétrico muda a lógica da manutenção
Outra diferença importante aparece depois que o caminhão entra na garagem.
Segundo Silvio Renan, o veículo elétrico elimina grande parte das manutenções tradicionais relacionadas ao trem de força de um caminhão a diesel.
Trocas de óleo e diversos componentes associados ao motor de combustão deixam de fazer parte da rotina. Renan estima que cerca de 90% das intervenções convencionais relacionadas ao trem de força não estejam presentes na solução elétrica.
Isso não significa ausência de manutenção.
Freios, suspensão e demais componentes continuam sendo acompanhados, enquanto cresce a importância do diagnóstico eletrônico.
Baterias, inversores, motores elétricos, sistemas de alta tensão, sensores e módulos passam a ser monitorados eletronicamente.
A conectividade também permite acompanhar ciclos de carregamento e parâmetros relacionados à utilização e à condição das baterias.
Se a manutenção é menor, por que vender caminhões tão novos?
A política de renovação da Reiter também chamou atenção durante a coletiva.
Mesmo com veículos cada vez mais confiáveis e, no caso do elétrico, com potencial para reduzir parte das intervenções mecânicas, a empresa considera aproximadamente quatro a cinco anos um ciclo adequado de permanência dos caminhões na frota.
Segundo Vinicius Pilz, depois desse período a necessidade de manutenção tende a crescer.
Para uma transportadora de grande porte, a disponibilidade do veículo é fundamental. Um caminhão parado representa perda de produtividade, independentemente de ainda possuir muitos anos de vida útil pela frente.
É por isso que veículos relativamente novos acabam chegando ao mercado de seminovos.
Esses caminhões podem iniciar uma segunda etapa de utilização em transportadoras menores ou com motoristas autônomos, que conseguem adquirir um veículo por valor inferior ao de um zero-quilômetro e administrar sua manutenção dentro de outra realidade operacional.
Para a Reiter, a renovação frequente também permite incorporar mais rapidamente novas tecnologias, além de manter padrões elevados de disponibilidade, segurança e conforto.
Diferentes tecnologias para diferentes missões
A chegada do elétrico evidencia que a Reiter não pretende apostar todas as fichas em uma única solução energética.
Para aplicações rodoviárias que exigem maior autonomia, o biometano aparece como uma das alternativas de maior interesse da companhia.
Em operações urbanas e interurbanas previsíveis, com possibilidade de retorno à base e infraestrutura de carregamento, o elétrico passa a ser avaliado.
A empresa também testa soluções híbridas, combustíveis renováveis e tecnologias aplicadas aos próprios implementos rodoviários.
A filosofia é experimentar agora para não chegar ao final desta década ainda tentando descobrir qual tecnologia funciona.
Meta avança até 2035
A estratégia faz parte de um planejamento de longo prazo iniciado em 2021.
Segundo Vinicius Pilz, a Reiter estabeleceu metas para reduzir progressivamente sua dependência dos combustíveis fósseis até 2035, e uma parcela significativa desse caminho já foi percorrida.
A expansão dos caminhões a gás mostra que o biometano continuará ocupando espaço importante nessa jornada. A chegada do primeiro elétrico da Scania acrescenta agora uma nova alternativa.
Mais do que uma disputa entre gás e eletricidade, a experiência da Reiter aponta para um transporte multienergético, no qual cada tecnologia encontra espaço de acordo com a operação.
O desafio do novo caminhão elétrico será justamente provar aquilo que a companhia já buscou demonstrar com o gás e o biometano: que reduzir emissões precisa funcionar não apenas ambientalmente, mas também na estrada e na planilha de custos.


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