Transporte por ônibus perde 45,9% dos passageiros pagantes em 12 anos
Anuário NTU 2026 mostra queda entre 2013 e 2025; especialistas defendem participação permanente da União, estados e municípios no custeio do serviço
O transporte público por ônibus perdeu 45,9% dos passageiros pagantes entre 2013 e 2025. O dado do Anuário NTU 2025- 2026 foi apresentado nesta terça-feira (11), durante o painel "Dez anos de queda, uma saída", no Seminário Nacional NTU 2026, realizado de 11 a 13 de agosto no São Paulo Expo. O levantamento reforça que a redução da demanda é estrutural e que o modelo sustentado majoritariamente pela tarifa paga pelo passageiro atingiu seu limite.
A série histórica reúne informações de 30 anos e acompanha 13 indicadores em nove sistemas representativos do transporte coletivo por ônibus no país. Mesmo depois do período mais crítico da pandemia, a demanda não retomou o patamar ao período anterior à epidemia. Para efeito de comparação, no transporte sobre trilhos, a redução acumulada de passageiros entre 2015 e 2025 foi de 11,3%, segundo os dados apresentados no painel.
Ao abrir o debate, Francisco Christovam, diretor-presidente NTU, relacionou a perda de passageiros ao tempo elevado de viagem, à falta de flexibilidade, ao conforto insuficiente, à tarifa alta e ao envelhecimento da frota. Com menor arrecadação, as empresas adiam a renovação dos veículos; a qualidade cai e o sistema perde ainda mais usuários, alimentando um ciclo que os participantes definiram como "espiral da morte".
"Temos três desafios: estancar a perda de passageiros, atrair de volta quem migrou para o transporte individual e conquistar uma nova geração que ainda não tem o hábito de usar o transporte público.", explicou Christovam.
Três pilares para financiar o serviço
Como resposta, a NTU apresentou as bases do programa Transporte para Todos, que propõe uma política nacional de custeio sem a criação de novos impostos. O desenho preliminar combina três fontes: a modernização do vale-transporte do trabalhador, com participação estimada entre 45% e 55% do custeio; o financiamento das gratuidades pelos orçamentos das políticas públicas responsáveis, entre 25% e 35%; e a criação do vale-transporte social para famílias vulneráveis, entre 5% e 15%.
Christovam ressaltou que a proposta está aberta a contribuições e ainda precisará ser discutida com os governos, o Congresso e a sociedade. O objetivo é reorganizar fontes existentes, reduzir o peso concentrado na tarifa e associar recursos públicos à qualidade, eficiência e transparência.
Para Ana Patrizia Lira, diretora-presidente da Associação Nacional dos Transportadores de Passageiros sobre Trilhos (ANPTrilhos), ônibus e trilhos precisam ser tratados como partes de um mesmo sistema. Ela defendeu integração física e tarifária, meios de pagamento mais simples e investimentos que reduzam o tempo das viagens e tornem o transporte coletivo novamente competitivo.
"O transporte é o direito dos direitos. Sem ele, a população não acessa educação, saúde, trabalho ou lazer. Por isso, transporte público não é despesa: é investimento na cidade", afirmou a diretora da ANPTrilhos.
Cooperação federativa e prioridade nas cidades
O sócio-fundador da Urucuia Mobilidade Urbana, Sérgio Avelleda, comparou o financiamento do transporte ao de outros serviços essenciais. Segundo ele, educação, saúde e segurança pública contam com responsabilidades e recursos compartilhados pelos entes federativos, enquanto a mobilidade coletiva ainda não possui uma estrutura nacional estável. Para Avelleda, a resposta exige participação da União, dos estados e dos municípios, além de prioridade ao transporte coletivo no espaço viário.
"Precisamos criar um modelo de colaboração federativa estável, como já existe na saúde e na educação, com recursos da União, dos estados e dos municípios para financiar o transporte público.", afirmou Sérgio.
O presidente da Urbanização de Curitiba (Urbs) e do Fórum Nacional de Secretários e Dirigentes Públicos de Mobilidade Urbana, Ogeny Pedro Maia Neto, afirmou que financiamento para aquisição de frota e infraestrutura, embora necessário, não resolve sozinho a falta de capacidade de pagamento dos sistemas. Ele defendeu coparticipação permanente dos três níveis de governo no custeio da operação e critérios transparentes para distribuir os recursos.
Ogeny também destacou a necessidade de adaptação das cidades ao Marco Legal do Transporte Público Coletivo Urbano, com revisão dos contratos, indicadores de eficiência e envio de informações ao Sistema Nacional de Informações em Mobilidade Urbana. Para ele, dados consistentes serão essenciais para orientar a distribuição justa dos recursos e acompanhar os resultados entregues à população.
Matteus Freitas, diretor de Mobilidade Urbana da NTU, observou que a pandemia aprofundou uma crise iniciada há mais de três décadas. Mudanças como trabalho remoto, ensino virtual, compras on-line e envelhecimento populacional reduziram a necessidade de deslocamento, enquanto automóveis, motocicletas e serviços por aplicativo ganharam participação. A política pública, segundo ele, precisa considerar essa transformação e financiar atributos valorizados pelo passageiro, como pontualidade, velocidade, cobertura e conforto.
Os participantes convergiram na avaliação de que recuperar demanda dependerá de duas frentes simultâneas: tornar a tarifa acessível e elevar a qualidade. Isso envolve renovar a frota, melhorar a infraestrutura, integrar os diferentes modos, dar prioridade ao transporte coletivo nas vias e assegurar recursos permanentes para manter o serviço em funcionamento.
SERVIÇO
39º Seminário Nacional NTU
Tema: Transporte para Todos
Data: 11 a 13 de agosto de 2026
Local: São Paulo Expo - Rodovia do Imigrantes - São Paulo/SP
Para mais informações sobre o Seminário da NTU, acesse: https://www.latbus2026.com.br/
