Mulheres no transporte: histórias de quem conduz mudanças nas ruas, nas garagens, nas empresas e nas estradas

31/03/2026

Henrique Estrada

Durante muito tempo, o setor de transporte coletivo foi visto como um ambiente predominantemente masculino. Nas garagens, nas oficinas e principalmente ao volante dos ônibus, a presença feminina era rara. Porém, essa realidade vem mudando de forma significativa nos últimos anos.

Hoje, cada vez mais mulheres ocupam posições importantes dentro do setor de mobilidade urbana. Elas estão no volante dos ônibus, na manutenção da frota, na gestão operacional, no planejamento das cidades, no desenvolvimento de projetos e também na liderança de grandes empresas de transporte.

Ao longo de seus 12 anos de trajetória, a Rádio Ônibus tem acompanhado e destacado essa transformação. Em reportagens especiais, entrevistas e coberturas em eventos do setor, nossa programação de rádio e vídeos tem dado voz às mulheres que ajudam diariamente a mover o transporte de passageiros no Brasil.

Em uma série especial de entrevistas realizadas pela Rádio Ônibus, profissionais de diferentes áreas do transporte compartilharam suas histórias. Entre elas estão motoristas urbanas, rodoviárias, instrutoras, lideranças operacionais e empresárias que ajudam a construir o futuro da mobilidade.

Essas histórias mostram que o transporte coletivo está passando por uma transformação importante — e que as mulheres têm papel fundamental nesse processo.


O transporte também é lugar de mulher

Durante décadas, muitas mulheres sequer imaginavam trabalhar no transporte coletivo. A imagem do motorista de ônibus, por exemplo, sempre foi associada a uma profissão masculina.

Mas a realidade mudou.

Hoje, mulheres dirigem ônibus em grandes cidades, conduzem veículos em longas viagens rodoviárias, trabalham nas garagens, supervisionam operações e também lideram empresas do setor.

Essa presença crescente não representa apenas uma conquista profissional. Ela também simboliza uma mudança cultural importante dentro de um setor essencial para o funcionamento das cidades.

E é justamente nessas histórias do cotidiano que essa transformação pode ser percebida.


Priscila Corrêa: do trabalho como cobradora ao volante do ônibus

Priscila Corrêa
Priscila Corrêa

A história da motorista Priscila Corrêa, da MobiBrasil, representa o caminho de muitas mulheres dentro do transporte coletivo.

Ela iniciou sua trajetória como cobradora e, convivendo diariamente com a operação dos ônibus, passou a se interessar pela profissão de motorista.

Pergunta – Rádio Ônibus:
Como surgiu a vontade de dirigir ônibus?

Priscila Corrêa:
"Eu comecei como cobradora e fui me identificando com a rotina do transporte. Conversava muito com os motoristas e eles falavam que eu tinha perfil. Aquilo foi despertando em mim a vontade de tentar."

Quando chegou o momento de assumir o volante, o desafio foi grande.

Pergunta – Rádio Ônibus:
Como foi o início da profissão?

Priscila Corrêa:
"Na escolinha da empresa a gente aprende bastante, mas quando começa a fazer a linha com passageiros dá um friozinho na barriga."

Coragem para ocupar novos espaços

Histórias como a de Priscila mostram que muitas vezes o primeiro passo para entrar no transporte surge dentro do próprio sistema — como passageira, cobradora ou funcionária de outras áreas.

A convivência diária com o transporte acaba despertando interesse e curiosidade. Aos poucos, muitas mulheres percebem que também podem ocupar funções que antes pareciam distantes.

Essa mudança não acontece apenas nas ruas. Dentro das empresas, a presença feminina também cresce em diferentes cargos operacionais.


Alexia: experiência e responsabilidade no transporte de passageiros

Alexia Trombelli
Alexia Trombelli

Com 18 anos de experiência, a motorista Alexia também iniciou sua carreira como cobradora.

Ao longo dos anos, ela construiu uma trajetória marcada pela responsabilidade e pelo cuidado com os passageiros.

Pergunta – Rádio Ônibus:
O que significa ser motorista de ônibus?

Alexia:
"Transportamos vidas. Então a atenção tem que ser constante. Cada dia é um novo desafio."

Ela também reconhece que a presença feminina no setor tem crescido, mas ainda existem desafios.

Pergunta – Rádio Ônibus:
O transporte mudou para as mulheres?

Alexia:
"Hoje tem mais mulheres trabalhando, mas ainda existe preconceito em alguns lugares."


O exemplo que inspira outras mulheres

Quando uma mulher assume o volante de um ônibus, ela não representa apenas uma profissional exercendo sua função. Muitas vezes, ela se torna referência para outras mulheres que também sonham em entrar no setor.

Ver uma motorista conduzindo um veículo de grande porte pelas ruas da cidade pode parecer algo simples hoje, mas para muitas pessoas ainda é uma imagem que simboliza conquista e superação.

E foi exatamente isso que aconteceu na história da próxima entrevistada.


Cristiane Mendes da Silva: um sonho que nasceu dentro do ônibus

Cristiane Mendes da Silva
Cristiane Mendes da Silva

A motorista Cristiane Mendes da Silva, da MobiBrasil, tem 12 anos de empresa e conta que sua paixão pela profissão surgiu ainda quando era passageira.

Pergunta – Rádio Ônibus:
Quando nasceu a vontade de dirigir?

Cristiane Mendes da Silva:
"Eu sempre gostei de dirigir. Quando entrava no ônibus ficava observando o motorista trabalhar."

Um momento importante foi quando ela viu uma mulher dirigindo ônibus pela primeira vez.

Cristiane:
"Eu nunca tinha visto uma mulher no volante. Conversei com ela e aquilo me deu coragem."

Hoje, Cristiane dirige até mesmo ônibus superarticulados de 23 metros, um dos maiores veículos da operação urbana.


Das cidades para as estradas

Se nas cidades a presença feminina vem crescendo, nas rodovias essa transformação também começa a ganhar espaço.

Durante muitos anos, dirigir ônibus rodoviários foi considerado um desafio ainda maior, principalmente pelas longas jornadas e pela responsabilidade das viagens intermunicipais e interestaduais.

Mas essa realidade também vem mudando.

Cada vez mais mulheres assumem o volante em viagens de longa distância, conduzindo passageiros pelas estradas do país.


Mulheres também nas estradas

Cristina de Brito Alexandre
Cristina de Brito Alexandre

Em uma das visitas da Rádio Ônibus à garagem da Viação Cometa, conversamos com duas motoristas rodoviárias e conhecemos histórias marcadas por superação, paixão e responsabilidade ao volante.

Na ocasião, a reportagem ouviu Cristina de Brito Alexandre e Tânia, profissionais que construíram suas trajetórias no transporte de passageiros e deixaram exemplos importantes para o setor.

Cristina contou que sua ligação com os ônibus começou ainda na infância, inspirada pelo pai, que também era motorista. Desde cedo, ela já vivia o ambiente das estradas, acompanhando viagens e desenvolvendo uma conexão natural com a profissão.

Pergunta – Rádio Ônibus:
Como começou sua ligação com a profissão?

Cristina de Brito Alexandre:
"Meu pai era motorista e eu fazia viagens com ele quando era criança. Eu adorava ficar dentro do ônibus. Mas nunca imaginei que um dia estaria aqui."

Ao longo da conversa, Cristina destacou sua trajetória até o transporte rodoviário, passando por diferentes áreas e acumulando experiência com veículos de grande porte. Também ressaltou a responsabilidade de transportar vidas, a atenção constante no trânsito e a importância da tecnologia embarcada para garantir mais segurança e conforto.

Ela ainda relembrou situações marcantes com passageiros, muitas vezes surpresos ao ver uma mulher ao volante, mas também admirados pelo seu trabalho.

"Tem que gostar de gente, ter cuidado com idosos, crianças e garantir uma viagem segura para todos."


Tânia da Silva
Tânia da Silva

Já Tânia destacou a importância da experiência prática e da adaptação, especialmente por já ter conduzido diferentes modelos de ônibus.

Pergunta – Rádio Ônibus:
Que conselho você daria para mulheres que querem entrar na profissão?

Tânia:
"Não desistam. Muitas portas podem se fechar, mas é importante continuar tentando. Tem que ter perseverança e fé."

As histórias mostram que, mais do que conduzir um ônibus, essas profissionais ajudam a abrir caminhos e inspirar outras mulheres a conquistarem seu espaço no transporte rodoviário brasileiro.



A experiência de quem vive o transporte desde cedo

Jucélia Garcia
Jucélia Garcia

Para muitas mulheres, o transporte não é apenas uma profissão que surgiu na vida adulta. Em vários casos, o contato com os ônibus começa ainda na infância, dentro da própria família.

Esse convívio cria uma relação natural com o setor e, muitas vezes, acaba se transformando em carreira profissional.

Foi exatamente assim na história da próxima entrevistada.

Ju (Jucélia): da infância no ônibus ao incentivo a novas motoristas

A profissional Jucélia, conhecida no setor como Ju, contou à Rádio Ônibus que sua ligação com os ônibus começou ainda muito jovem.

Pergunta – Rádio Ônibus:
Como começou sua relação com o transporte?

Ju:
"Meu pai comprou um ônibus na época em que teve greve e faltava transporte. A família inteira se envolveu e eu, com 12 ou 13 anos, já ia de cobradora."

Depois de um período afastada para formar família, ela decidiu voltar ao setor.

Pergunta – Rádio Ônibus:
Como foi a decisão de se tornar motorista?

Ju:
"Eu já era instrutora de autoescola, mas não trabalhava com ônibus. Quando precisei trabalhar, decidi tentar. Treinei um pouco e fui na cara e na coragem."

Hoje, Ju também atua incentivando outras mulheres a ingressarem no transporte.

Ju:
"A gente quer incentivar a contratação de mais mulheres motoristas e também em outras áreas das empresas."


Liderança feminina também nas empresas de transporte

Niege Chaves
Niege Chaves

A presença feminina no transporte não se limita à operação dos veículos. Em muitas empresas, mulheres também ocupam cargos estratégicos de gestão e liderança.

Essas profissionais ajudam a tomar decisões importantes para o funcionamento do sistema de transporte, participando de projetos, planejamentos e transformações que impactam diretamente a mobilidade urbana.

Entre essas lideranças está a empresária Niege Chaves, uma das figuras mais respeitadas do setor de transporte coletivo no Brasil.


Niege Chaves: liderança e trajetória no transporte coletivo

Niege Chaves:
"Eu fico muito orgulhosa de ver como as mulheres cresceram no transporte. Hoje elas dirigem ônibus, trabalham nas operações e ocupam diferentes cargos dentro das

Com mais de três décadas de dedicação ao transporte coletivo, a empresária Niege Chaves, do Grupo MobiBrasil, construiu uma trajetória marcada por desafios, aprendizado e liderança.

Pergunta – Rádio Ônibus:
Como começou sua trajetória no transporte?

Niege Chaves:
"Eu comecei a trabalhar com 17 anos e hoje tenho mais de 30 anos de catraca rodando."

Ao longo desses anos, ela acompanhou de perto as transformações do setor e participou de diversos momentos importantes da mobilidade urbana no país.

Mesmo após décadas de atuação, Niege afirma que a motivação continua a mesma.

Niege Chaves:
"Eu amo o que faço. Trabalho com transporte público há muitos anos e continuo acreditando que podemos melhorar muito a mobilidade das cidades."

Ela também destaca a evolução da presença feminina no setor.

Niege Chaves:
"Eu fico muito orgulhosa de ver como as mulheres cresceram no transporte. Hoje elas dirigem ônibus, trabalham nas operações e ocupam diferentes cargos dentro das


Bastidores da manutenção revelam o protagonismo feminino nas garagens de ônibus

Ângela Maria Rodrigues
Ângela Maria Rodrigues

Na garagem da Mobi Brasil, a Rádio Ônibus destacou os bastidores do transporte coletivo ao conversar com a profissional Ângela, da área de manutenção, que mostrou a importância do trabalho realizado longe dos olhares dos passageiros.

Durante a entrevista, ela ressaltou a crescente presença feminina dentro das garagens de ônibus, quebrando antigos preconceitos no setor.

Pergunta – Rádio Ônibus:
Como você vê a presença das mulheres dentro da garagem?

Ângela:
"Muitos não acreditam em uma mulher dentro de uma garagem de ônibus. Acham que é um ambiente só para homens. Mas isso já mudou. Hoje temos mulheres eletricistas, na funilaria, na pintura… não só no administrativo."

Ângela explicou que sua função está diretamente ligada à gestão da manutenção da frota, acompanhando toda a "vida" dos veículos — desde a entrada na garagem até a operação nas ruas — com foco em prevenir falhas e garantir a qualidade do serviço.

Pergunta – Rádio Ônibus:
Como funciona o seu trabalho no dia a dia?

Ângela:
"A gente cuida de toda a programação dos veículos. Trabalhamos com manutenção preventiva e corretiva para evitar problemas na rua. Nosso passageiro é a nossa vida, então tudo precisa funcionar bem."

Ela também destacou o uso da tecnologia, que permite identificar problemas ainda durante a operação, além do trabalho em equipe entre motoristas e manutenção para manter a frota em pleno funcionamento.

Outro ponto marcante foi o lado humano da profissão, construído no dia a dia dentro da garagem:

"Quando você entra nesse mundo, se apaixona. Aqui vira uma segunda família."

A entrevista mostra que, por trás de cada ônibus em circulação, existe uma equipe dedicada — e cada vez mais feminina — garantindo que o transporte funcione com segurança, eficiência e cuidado com o passageiro.



Histórias que inspiram novas gerações

As trajetórias de Priscila, Alexia, Cristiane, Cristina, Tânia, Jucélia, Ângela e Niege Chaves mostram que o transporte coletivo brasileiro está vivendo um momento de transformação.

Cada uma delas, em sua área de atuação, contribui para construir um setor mais diverso, moderno e preparado para os desafios das cidades.

Ao destacar essas histórias, a Rádio Ônibus reafirma seu compromisso de valorizar o papel das mulheres no transporte, mostrando que a mobilidade também é feita por elas — nas ruas, nas garagens, nas empresas e nas estradas do Brasil.

Mais do que conduzir ônibus ou administrar empresas, essas mulheres conduzem uma mudança cultural importante: a certeza de que o futuro do transporte também passa pela liderança, talento e dedicação feminina. 



Share