

Mobilidade Urbana no Brasil em 2026


No congresso da ANTP (ARENA 2025), realizado em outubro do ano
passado, especialistas do setor como Ogeny Pedro Maia Neto,
presidente do Fórum Nacional de Secretários e Dirigentes de Mobilidade
Urbana, Pedro Henrique de Moraes Marques, Chefe do Departamento de
Mobilidade Urbana do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e
Social (BNDES) e Jurandir Fernandes, Professor da Universidade
Estadual de Campinas (UNICAMP) e Vice-presidente Honorário da União
Internacional de Transportes Públicos (UITP), debateram as perspectivas
e as tendências para o transporte público coletivo de passageiros, para
2026.
Com o objetivo de se realizar uma análise conjuntural e não uma
apreciação muito detalhada, por modos ou por projetos, os três
painelistas destacaram que o próximo ano será estratégico para o
desenvolvimento do setor, em razão de oportunidades para inovação,
modernização e, também, de um ambiente regulatório mais maduro,
além de um novo ciclo de investimentos. Entretanto, persistem desafios
estruturais de financiamento e uma necessidade urgente de adaptação
às demandas sociais e ambientais, exigindo dos "stakeholders" uma
análise preditiva e estratégica para navegar entre tecnologia, economia e
política.
O transporte coletivo é reconhecido como serviço público essencial e
fundamental para a organização urbana e para a qualidade de vida nas
cidades. Contudo, a capacidade do setor de cumprir sua função está
diretamente ligada ao preparo dos órgãos gestores e à existência de
fontes de recursos, para investimentos e custeio, necessários à
prestação dos serviços. O contexto eleitoral de 2026, torna ainda mais
relevante a definição de estratégias para superar desafios e aproveitar
oportunidades, influenciando o futuro da mobilidade urbana nas próximas
décadas.
Os aspectos jurídico-legais devem ser transformados pelo Marco Legal
do Transporte Público Coletivo, em fase final de discussão no Congresso
Nacional. Sua implementação, prevista para 2026, trará exigências
operacionais mais rigorosas e um ambiente de fiscalização também mais
fortalecido. Entre os avanços, destaca-se a diversificação dos modelos
de contratação, como parcerias público-privadas (PPPs) e novos tipos de
contratos de concessão, permitindo dissociar parte do risco tarifário do
risco do investimento em infraestrutura e no material rodante.
O Marco Legal também impõe novos padrões de qualidade e
acessibilidade, incentivando os operadores a renovar frotas e aprimorar a
infraestrutura, com vistas a garantir conformidade regulatória. A nova
base jurídica deverá estabelecer diretrizes para um transporte mais
moderno, acessível e sustentável, alinhando o setor com as demandas
sociais e ambientais emergentes. Ogeny Maia destacou que o Marco
Legal deverá afiançar o transporte público como um direito social e um
serviço essencial, promovendo maior segurança jurídica para os
contratos, incentivando a sustentabilidade, criando regras claras de
financiamento e melhorando a qualidade dos serviços prestados à
população.
O aumento dos investimentos públicos e privados está sendo promovido
por uma estratégia federal coordenada, com destaque para o papel do
BNDES como indutor de investimentos. O Estudo Nacional de Mobilidade
Urbana (ENMU), desenvolvido em parceria com o Ministério das
Cidades, mapeou cerca de 200 projetos, de média e alta capacidades,
em 21 regiões metropolitanas, totalizando quase R$ 450 bilhões de
investimentos no setor e oferecendo previsibilidade ao mercado para
novos tipos de contratação.
A predominância de projetos em regiões metropolitanas reforça a
necessidade de coordenação entre as diferentes esferas de governo. O
investimento federal estimula estados e municípios a fortalecerem ou a
criarem Autoridades Metropolitanas, essenciais para uma integração
modal e tarifária módica e eficiente. Superar as dificuldades próprias de
uma gestão metropolitana é condição fundamental para avançar na
integração dos sistemas de transporte coletivo. Pedro Henrique
ressaltou a importância de uma boa governança das empresas
operadoras de transportes para a concessão de financiamentos, tanto
para investimentos em infraestrutura, como para aquisição de frota.
O uso de novas tecnologias será o principal catalisador de eficiência,
sustentabilidade e atratividade do transporte coletivo em 2026. A coleta
massiva de dados possibilita a otimização de rotas e de horários,
enquanto a manutenção preditiva, baseada em Big Data, pode reduzir
custos e aumentar a confiabilidade operacional. Exemplos como o BRT
de Goiânia e o BRT de Sorocaba ilustram o sucesso da aplicação de
modernos Intelligent Transport Systems (ITS) na operação e na redução
de custos operacionais.
A Inteligência Artificial (IA), incorporada não apenas à gestão de frotas,
mas, também, para aprimorar a experiência do passageiro, deverá
oferecer previsões mais precisas e integração entre os diferentes
modais, incluindo micromobilidade (bicicletas e patinetes). O objetivo é
criar uma experiência fluida de "mobilidade como serviço", garantindo
acesso facilitado e integrado a todas as formas de transporte urbano.
Na agenda ambiental, a eletrificação da frota é apontada como vetor de
sustentabilidade; porém, em 2026, o principal desafio a enfrentar será a
infraestrutura de recarga, mais do que a aquisição, propriamente dita,
dos veículos elétricos. Atualmente, menos de 1% da frota de transporte
coletivo é movida a tração elétrica e a expansão depende de
investimentos robustos na adequação das redes de energia locais. A
utilização de outras tecnologias, como o ônibus movido a biometano,
amplia a capacidade de substituição da frota diesel por veículos menos
poluentes. O foco dessa substituição estará na estruturação de projetos
de infraestrutura – viária e de abastecimento –, fundamentais para a
transição energética do setor.
O investimento em tecnologia é também uma aposta na sustentabilidade
econômica do setor, que enfrenta pressão para a redução de custos e
para a concessão de subsídios aos transportes de passageiros. A
eficiência sistêmica, promovida pela introdução de novas tecnologias –
nas áreas da manutenção dos veículos, na programação da operação
das linhas e na otimização de rotas –, é pré-requisito para legitimar o
aumento da eficiência operacional e o redimensionamento de recursos
para ampliar subsídios e garantir tarifas módicas.
O transporte coletivo vem operando com custos superiores à capacidade
de pagamento dos usuários, enquanto limitações fiscais dos entes
federativos dificultam a concessão de subsídio, resultando em reajustes
tarifários ou cortes no atendimento. Isso prejudica o acesso universal da
população aos serviços e compromete a função social do sistema.
A Tarifa Zero, implementada em mais de 170 municípios (a maioria de
pequeno e médio portes), divide opiniões e será tema central das
discussões, em 2026. Estudos apontam para o aumento expressivo da
demanda e de benefícios sociais, mas o custo operacional, em cidades
de médio e grande portes, é o principal entrave. Nesse sentido, Jurandir
Fernandes comentou que "A TZ deixou de ser uma mera ideia para se
tornar um objeto de estudo que demanda rigor científico e pragmatismo.
O desafio atual não é apenas celebrar suas conquistas nas pequenas
cidades, mas garantir que as iniciativas já em curso se sustentem e que
as futuras sejam implementadas com a devida base de evidências e
planejamento, para não se tornarem um fardo para as cidades e seus
cidadãos".
Em ano eleitoral, com eleições majoritárias (presidente, governadores e
senadores) e proporcionais (deputados federais, estaduais e distritais),
certamente, o financiamento do transporte coletivo estará no centro das
discussões. Propostas como a adoção de um Sistema Único de
Mobilidade (SUM), inspirado no SUS e previsto na Proposta de Emenda
à Constituição – PEC 25/2023, sugerem custeio compartilhado entre
União, estados e municípios, oferecendo alternativa para o dilema das
receitas extraordinárias nos orçamentos municipais. A viabilização da
Tarifa Zero em grandes cidades depende da criação de novas fontes de
receita ligadas à mobilidade urbana.
A gestão metropolitana fragilizada é outro obstáculo e fortalecer
autoridades metropolitanas – formais ou não – será essencial para
integrar redes e tarifas. Promessas populares, como implementação
imediata da Tarifa Zero, podem comprometer investimentos de longo
prazo, se não vierem acompanhadas de planejamento e de fontes de
custeio adequadas.
A análise desses cenários leva à conclusão de que o ano de 2026 trará
oportunidades para inovação e modernização do setor, mas o progresso
depende da convergência entre tecnologia, investimentos e ação política,
transformando demandas sociais em compromissos duradouros. É
fundamental que gestores públicos, operadores e investidores adotem
uma visão estratégica e colaborativa para superar obstáculos e promover
um transporte coletivo de qualidade, acessível e sustentável para todos.
Francisco Christovam é Diretor Presidente (CEO) da Associação Nacional das
Empresas de Transportes Urbanos (NTU), Vice-Presidente da Federação das
Empresas de Transportes de Passageiros do Estado de São Paulo (FETPESP) e da
Associação Nacional de Transportes Públicos (ANTP), bem como membro do
Conselho Diretor da Confederação Nacional do Transporte (CNT) e membro do
Conselho Deliberativo do Instituto de Engenharia.


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